Otimismo em tempo de crise

OTIMISMO EM TEMPO DE CRISE

Genserico Encarnação Jr.
eeegense@nutecnet.com.br

Diante dos atuais quadros de crise mundial, nacional e estadual, uma dose de otimismo se faz oportuna. Não o otimismo cândido, ironizado por Voltaire, mas um otimismo realista, viável, possível.

A crise é séria, sem dúvidas. É difícil injetar otimismo em tempos de recessão, desemprego, déficits e dívidas crescentes, juros altos e pagamentos atrasados. Este artigo não visa amenizar a situação, justificar erros ou levantar esperanças infundadas.

O objetivo é mostrar que o Espírito Santo tem potenciais que, se bem aproveitados, podem se constituir em bases de um novo ciclo do seu desenvolvimento econômico e social.

O primeiro potencial a assinalar é o energético. Com a descoberta de novas reservas de gás natural na plataforma continental norte, existe a possibilidade de, no mínimo, duplicar-se a atual produção, de 650 mil metros cúbicos diários (m³/d). Do acréscimo, 600 mil m³/d servirão a uma Usina Termelétrica, com capacidade de 150 megawatts (MW). As expectativas são de se descobrir nesta região novas reservas da ordem de 30 bilhões de m³, que permitiriam uma produção de 6 milhões de m³/d de gás natural.

A atual situação institucional e legal do país permite que a Petrobras se associe a investidores privados para aplicação de novos recursos na exploração da Bacia do Espírito Santo, área de concessão dessa empresa, cuja geologia é sabidamente promissora.

No sul do Estado, essas parcerias começaram também a ser firmadas. Nas nossas costas submarinas, em águas profundas, a expectativa é de se achar reservas significativas de óleo e gás, com base em análises sísmicas positivas, num prospecto geológico que é a continuação do da Bacia de Campos, a maior província petrolífera do Brasil.

Ainda no campo da energia, a Petrobras e a Cia. Vale do Rio Doce vêm negociando, desde 1996, o transporte de aproximadamente 5 milhões de m³/d de gás natural, através do gasoduto Cabiúnas(RJ)-Vitória. Ancorado em alguns dos projetos da CVRD, em especial a construção de outra Usina Termelétrica, agora na Grande Vitória, com capacidade de 500 MW, o gasoduto já faz parte do Programa Federal “Brasil em Ação”. Isto demonstra a prioridade governamental, embora o projeto possa ser financiado com recursos privados sem ficar dependente de ajustes orçamentários do governo. Com a construção deste gasoduto o Espírito Santo estará interligado à rede sudeste/sul/centro-oeste do país e ao cone sul americano.

Com o advento das Usinas Termelétricas, projetos que podem atrasar mas que são irreversíveis, serão incorporadas 650 MW à capacidade atual de 200 MW. Hoje importamos cerca de 80% das necessidades de energia elétrica; com as termelétricas aumentará significativamente a nossa autonomia neste campo.

Um segundo potencial decorre da implantação do laminador de tiras a quente (LTQ) da Cia. Siderúrgica de Tubarão (CST), viabilizado pelo novo grupo controlador daquela empresa. Esse investimento abre inúmeras possibilidades na utilização de laminados de aço, que podem ser consumidos por fábricas de ferramentas, estruturas metálicas, trefilados, embalagens, tanques, reservatórios, artigos de funilaria, caldeiraria, serralheria, cutelaria, fundidos e forjados, chassis, gabinetes de aparelhos eletrodomésticos, etc. A indústria metal-mecânica, com o apoio da construção civil, pode propiciar um novo ímpeto à economia, em segmentos importantes para a criação de empregos.

A CST vem desenvolvendo um excelente trabalho no sentido de difundir o uso dos seus produtos, inclusive com a criação de um núcleo de excelência em estruturas metálicas na UFES.

No campo do desenvolvimento da metalurgia capixaba deve-se ressaltar o reinício das operações da antiga COFAVI, agora sob o comando da Belgo Mineira, seja na produção de tarugos de aço, seja na laminação de perfilados utilizados na construção civil e na indústria mecânica, recolocando nosso Estado no rol dos produtores de aço da melhor qualidade. Essa unidade começou a consumir 40 mil m³/dia de gás natural utilizando o gasoduto de contorno de Vitória.

O convênio que congrega o CDMEC, SINDICON, BANDES e SEBRAE numa iniciativa para aumentar a participação capixaba nos grandes investimentos é um exemplo para o bom aproveitamento desse filão de oportunidades.

Além das duas áreas aludidas, cumpre mencionar outros projetos, em negociação, e que podem dar maior consistência a esse quadro de otimismo. Tratam-se das ferrovias litorâneas norte e sul, da expansão do nosso complexo portuário, do incremento do turismo, do incentivo ao desenvolvimento da cadeia floresta-indústria na silvicultura e da possibilidade de um pólo gás químico em Aracruz, entre outros. A incorporação do norte capixaba ao esquema SUDENE e os incentivos fiscais estaduais já existentes podem também compor este quadro.

A continuidade das articulações com as instituições condutoras desses projetos, já devidamente encaminhadas, com a constante preocupação de maximizar e otimizar os benefícios econômicos e sociais desses empreendimentos para o Estado e sua população, deve constituir-se em permanente prioridade dos novos governantes. O objetivo a perseguir é o aumento da participação local nesses investimentos, a maior utilização do que aqui vier a ser produzido e a desejável agregação de valor a essa produção.

O autor é economista da ADERES – Agência de Desenvolvimento em Rede do Espírito Santo e Secretário-Executivo da Câmara Estadual de Energia.

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